(Fotografia por Catarina. Respeite os direitos de autoria)
Quando o dia começa a adormecer tudo o que está à sua volta começa a ter outra magia. É como se se tranformasse em algo diferente, que sempre esteve lá, mas nem todas as pessoas o conseguiram ver apenas porque não queriam prestar tal atenção. A luz começa silênciosamente a desaparecer assim como a praia começa a perder as cores vivas dos chapéus de sol e das toalhas estendidas ao longo do areal, e dão lugar a alguns pescadores que se preparam para passar longas horas à espera que algo faça mover a linha da cana de pesca. A praia torna-se viva, selvagem, e agora sim, está no seu esplendor. Agora parece que as ondas rebentam com uma outra força e alegria, por vezes até penso que está feliz por ter todo o espaço apenas para deixar a sua a água esticar-se pelo areal, sem se sentir presa ou introvertida por tanta presença. Desço calmamente a rampa com largos degraus que dão acesso à praia, e a cada passo sinto-me renascer. Quando olho para o lado já não te vejo, mas sei precisamente onde estás. A praia conhece-me desde pequena, desde pequena que vejo o mar como mais que apenas litros e litros de água ou onde nos podemos refrescar em dias quentes, quando o sol brilha sem se cansar. Não sou apreciadora de praia, de estar todo o dia ao sol, mudando constantemente de posição à medida que o sol vai avançando no dia, de modo a ter um bronzeado prefeito. Gosto da praia assim, deserta, onde possa estar apenas comigo e com o mar, sem ter o receio de alguém me estar a vigiar ou apenas a olhar para mim. Gosto de estar sozinha. Olho para o fundo da praia e vejo-te a correr na minha direcção. És mesmo um tonto, mas adoro poder dar-te tanta alegria. Sei que estás seguro por isso continuo a andar envolta nos meus pensamentos.
Já quase não vejo o sol, apenas uma linha no fim do horizonte em tons amarelo alaranjado, dando ao céu um tom de nostalgia que sempre adorei. "Está o entardecer perfeito!". Sento-me no areal que fora pisado por dezenas de pessoas durante o dia e sinto algo molhado da minha face direita. Estás coberto de areia, cansado e cheio de medo da água, deitaste no meu colo enquanto eu afago o teu pelo escuro e brinco com as tuas grandes orelhas que de repente acordam fazendo com que desates a correr atrás das pobres gaivotas que procuram algo deixado para trás com que possam sacear a sua fome, ou mesmo um aperitivo. Olho em frente, para o horizonte, e as mesmas perguntas e afirmações de sempre surge-me no pensamento. "Como é possível?", "Existe algo para além desta pequena linha ao fundo do mar, existe vida, tudo aquilo que vimos em documentários e em livros escolares existe, mesmo ali ao fundo", "Como será para além do que consigo ver?", "Como consegues ser tão perfeito e completo?". Sinto-me insignificante enquanto o sol desapareceu e apenas dele restam raios de uma luz que já foi mais forte mas menos bonita.
Já passam das 20h 30min, segundo a posição que o sol ocupou e a forma como a luz começou a desaparecer. Já vejo Vénus, e a Lua começa a ganhar forma e intensidade à medida que a noite começa a cair. Já não vai estar lua cheia, mas de certo que vai estar linda, embora sem um céu muito estrelado. Olho para baixo e adormeceste no meu colo, "São horas de irmos Farras. Temos que ir, e tu tens que ir para casa". Olha-me com aquele ar irresistível que conheço à mais de um ano que diz deixa-me ir contigo! Era tudo o que queria, mas não te posso levar para casa... Levantamo-nos e corremos um ao lado do outro, roubas-me o chinelo enquanto lhe vincas os teus dentes deixando uma marca de recordação. Brincamos tanto que ficamos exaustos. Caminhamos um ao lado do outro de regresso, mas sempre que vem uma onda maior, foges e ladras-lhe, "A água não te faz mal, tonto".
Calço os chinelos quando chegamos à grande rampa de onde entrámos. Páro, inspiro, fecho os olhos, e apenas uma frase me vem ao pensamento, "O mar é a enciclopédia da vida!". Já são quase 21h, vou levar tanto na cabeça, ainda por cima desliguei o telemóvel. Mas não me arrependo, senti-me viva.
Obrigada.
(Fotografia por Catarina. Respeite os direitos de autoria.)















