16.10.10

Acabei à cerca de cinco minutos o livro de Andrey Niffenegger, "A Mulher Do Viajante No Tempo" (que já esteve nos cinemas à pouco tempo). Ainda tenho os olhos vermelhos e inchados e a cara quente.Esta senhora é um espectáculo, não só amei o livro como tenho a certeza que o vou ler pelo menos mais uma vez.

Vou deixar uma grande marca do livro aqui para vocês lerem. Acho que foi das partes que mais me tocou. Espero que gostem.


Páginas 466 até 468.

" Minha Muito Querida Clare,

Escrevo esta carta sentado à minha secretária no quarto das traseiras, a olhar para o teu estúdio do outro lado do jardim interior, cheio de neve azulada pelo anoitecer; está tudo escorregadio, coberto por uma crosta de gelo e muito silencioso. É uma daquelas noites de Inverno em que o frio de cada coisa parece tornar o tempo mais vagaroso, como o centro estreito de uma ampulheta pela qual o tempo flui, mas lenta, muito lentamente. Tenho a sensação, que me é muito familiar quando estou fora do tempo mas quase nunca noutras circunstâncias, de estar a boiar no tempo, a flutuar passivamente na sua superfície, sem esforço, como uma nadadora gorda. Esta noite, aqui em casa sozinho (tu foste ao recital da Alicia no St. Lucy's), senti um desejo repentino de te escrever uma carta. Quis, de súbito, deixar alguma coisa para depois. Penso que o tempo é pouco, agora. Sinto que todas as minhas reservas de energias, de prazer, de duração, se tornaram escassas, pequenas. Não me sinto capaz de continuar muito mais tempo. Sei que tu sabes.
Se estás a ler isto, provavelmente estarei morto. (Digo provavelmento porque nunca sabemos que circunstâncias podem ocorrer; parece-me idiota e presunçoso declarar simplesmente a nossa morte como um facto absoluto.) Quanto a esta minha morte, espero que tenha sido simples, clara e inequívoca. Espero que não tenha causado muita agitação. Lamento. (Isto parece um bilhete de suicídio. Estranho.) Mas tu sabes: sabes que se eu pudesse ter ficado, se pudesse ter continuado, ter-me-ia agarrado a cada segundo: o que quer que esta morte tenha sido, sabes que ela chegou e levou-me, como uma criança arrebatada por trasgos.
Clare, quero dizer-te, de novo, que te amo. O nosso amor foi o fio para me guiar no labirinto, a rede debaixo do homem que caminha no arame, a única coisa real desta minha estranha vida em que pude confiar. Esta noite sinto que o meu amor por ti tem mais densidade neste mundo do que eu próprio: como se ele pudesse permanecer depois de mim e envolver-te, suster-te, amparar-te.
Detesto pensar em ti à espera. Sei que esperaste por mim toda a tua vida, sempre incerta quanto à duração desse tempo de espera. Dez minutos, dez dias. Um mês. Que marido incerto eu fui, Clare, como um marinheiro, Odisseu sozinho e fustigado por ondas altas, umas vezes astuto e outras apenas um joguete dos deuses. Por favor, Clare, rogo-te. Quando eu morrer... pára de esperar e sê livre. De mim. Guarda-me profundamente dentro de ti e depois sai para o mundo e vive. Ama o mundo e a ti mesma nela, movimenta-te nele como se não oferecesse nenhuma resistência, como se o mundo fosse simplesmente o teu elemento natural. Dei-te uma vida de animação suspensa. Não pretendo dizer que não fizeste nada. Criaste beleza, e sentido, com a tua arte, e Alba, que é tão espantosa, e para mim... para mim foste tudo.
Depois de morrer, a minha mãe devorou por completo o meu pai. Uma coisa que ela teria detestado. Cada minuto da vida dele, depois da sua morte , foi marcado pela ausência dela, a cada acto dele faltou dimensão, porque ela não estava lá para servir de bitola. Quando eu era jovem não compreendia, mas agora sei, sei como a ausência pode estar presente como um nervo danificado, como uma ave negra. Se tivesse de continuar a viver sem ti, sei que não seria capaz. Mas espero, tenho esta visão de ti a caminhar solta, livre, com o teu cabelo luminoso ao sol. Não vi isso com os meus olhos, mas apenas com a minha imaginação, que cria imagens, que sempre quis pintar-te, cintilante; mas, de qualquer modo, espero que esta visão se torne realidade.
Há uma última coisa, Clare, uma coisa que tenho hesitado em dizer-te porque tenho um medo supersticioso de que, dizê-la, possa fazer com que não aconteça (tolice, eu sei) e também porque acabo de falar a respeito de não esperares e isto pode fazer-te esperar mais tempo do que alguma vez esperaste antes. Mas vou dizê-la, para o caso de precisares de alguma coisa, depois.
No Verão passado, estava na sala de espera do Kendrick e, de súbito, encontrei-me num corredor escuro, numa casa que não conheço. Tive a impressão de tropeçar em galochas e cheirava a chuva. Ao fundo do corredor vi uma fresta de luz à volta de uma porta e, por isso, avancei muito devagar e silenciosamente e espreitei para o interior. A sala era branca e estava intensamente iluminada pelo sol matinal. Sentada à janela, de costas para mim, estava uma mulher com um casaco de malha cor de coral e comprido cabelo branco caído pelas costas abaixo. Tinha uma chávena de chá ao lado, numa mesinha. Devo ter feito algum ruído, leve, ou então ela sentiu a minha presença atrás de si... Virou-se e viu-me, e eu vi-a...e eras tu, Clare, eras tu, idosa, no futuro. Foi terno, Clare, foi indizivelmente terno surgir, como se regressasse da morte, para te admirar, para ver a marca de todos os anos decorridos presente no teu rosto. Não te digo mais nada, para poderes imaginar, para poderes flui-lo em primeira mão quando o tempo chegar, como chegará, como chega. Voltaremos a ver-nos, Clare. Até lá, vive, vive plenamente, presente no mundo que tão belo é.
Já escureceu e estou muito cansado. Amo-te, sempre. O tempo é nada.

Henry"

6 comentários:

luis, o tigre disse...

adorei a musica, mesmo. passa no meu blog a dizer-me o nome por favor
eu não vi o filme porque as coisas não se proporcionaram mas ficou cá dentro o 'bichinho'. agora quero vê-lo ainda mais

Carla disse...

Fazes bem,não perdes nada linda. :)

Vera disse...

Obrigada querida *.*

Gabriela Andrade disse...

Não li o livro, mas assisti ao filme e é lindo! Chorei no final...
Obg pela visita. (:

Sofia disse...

Ei tenho mt para ler, já ha mt tempo que nao venho aqui! :)
Quando nao tiver nada que fazer venho aqui ler as tuas coisinhas lindas. Agora com o trabalho, tenho sempre alguma coisa para fazer e sem tempo para vir aqui :(

Carla disse...

A sério?Mas isso é mesmo muito bom.:O
Tens todo o meu apoio. =D